A Assembleia Legislativa do Maranhão transformou, nesta quinta-feira (7), o Plenário Nagib Haickel, no Palácio Manuel Beckman, em um grande espaço de reverência à memória da imprensa maranhense. A sessão solene em homenagem ao centenário do jornal O Imparcial reuniu autoridades, jornalistas, intelectuais, ex-colaboradores e representantes da sociedade civil em um reconhecimento histórico ao veículo que, há um século, acompanha os principais acontecimentos políticos, sociais, econômicos e culturais do Maranhão.
Mais do que uma celebração institucional, a solenidade simbolizou o reconhecimento público da relevância histórica de um jornal que atravessou regimes políticos, mudanças tecnológicas, crises econômicas e transformações profundas na comunicação sem perder sua identidade editorial. Fundado em 1º de maio de 1926 pelos irmãos José e João Pires Ferreira, O Imparcial consolidou-se como um dos mais tradicionais periódicos do Norte e Nordeste do país, integrando posteriormente os Diários Associados, fundados por Assis Chateaubriand.
A cerimônia foi conduzida pela presidente da Assembleia Legislativa, deputada estadual Iracema Vale, autora do Projeto de Lei 443/2025, que resultou na Lei 12.727, responsável por declarar o jornal Patrimônio de Natureza Cultural Imaterial do Estado do Maranhão. A legislação foi sancionada pelo governador Carlos Brandão e assinada também pelo secretário-chefe da Casa Civil, Sebastião Madeira.
Ao longo da sessão, os discursos convergiram para uma mesma compreensão: a de que O Imparcial ultrapassou há muito tempo a condição de simples veículo de comunicação para tornar-se um patrimônio afetivo, histórico e cultural do povo maranhense. O jornal foi descrito como “guardião da memória coletiva”, expressão repetida diversas vezes durante a solenidade para traduzir a importância de um veículo que registrou, diariamente, a vida do Maranhão ao longo de dez décadas.
Em um dos pronunciamentos mais marcantes da cerimônia, a deputada Iracema Vale ressaltou que o reconhecimento concedido ao jornal representa também um gesto de preservação da própria identidade maranhense. A parlamentar iniciou sua fala citando uma frase do diretor-executivo do periódico, Célio Sérgio: “O impresso eterniza os fatos”.
Um historiador contemporâneo
A partir da reflexão, Iracema Vale destacou o papel desempenhado pelo jornal ao longo de um século. “Eternizar fatos é registrar o tempo e ajudar o povo a contar a própria história. E foi exatamente isso que O Imparcial fez ao longo de seus 100 anos”, afirmou. Segundo ela, o periódico não apenas relatou acontecimentos, mas ajudou a construir a narrativa histórica do Maranhão. “O Imparcial ajudou o Maranhão a enxergar a si mesmo ao longo de um século”, declarou.
A presidente da Assembleia observou ainda que o jornal atravessou diferentes ciclos históricos do estado e do país, acompanhando mudanças políticas, sociais, culturais e urbanas sem abrir mão do compromisso com a informação responsável. “Do impresso produzido de forma artesanal às plataformas digitais de hoje, O Imparcial acompanhou as mudanças da comunicação sem abrir mão da credibilidade e do jornalismo sério”, destacou.
Ao defender a concessão do título de Patrimônio Cultural Imaterial, Iracema Vale sintetizou o sentimento predominante da sessão: “O Maranhão precisa preservar quem preserva o Maranhão”. A frase tornou-se uma espécie de síntese simbólica da homenagem, evidenciando o entendimento de que preservar a trajetória de O Imparcial significa também preservar a memória social, política e cultural maranhense registrada em suas páginas ao longo de cem anos.
Jornalismo como missão coletiva
A dimensão histórica do momento foi reforçada pelo discurso do diretor de Redação do jornal, Raimundo Borges, que há 55 anos integra o periódico, sendo 35 deles no comando da redação. Em uma fala marcada pela emoção e pela defesa do jornalismo como missão coletiva, Raimundo Borges destacou que sua própria trajetória profissional se confunde com a história do jornal.
“Cem anos. Um século de um produto que traz, em sua essência, a coletividade. Ninguém faz jornal sozinho”, declarou da tribuna da Assembleia. A frase resumiu a visão do jornalista sobre o significado histórico do periódico: uma construção coletiva feita por gerações de profissionais anônimos e conhecidos que dedicaram suas vidas ao exercício do jornalismo.
Raimundo Borges lembrou que a longevidade de um jornal impresso no Brasil tornou-se algo raro, sobretudo diante das transformações provocadas pelas tecnologias digitais e pela crise enfrentada pelos veículos tradicionais de comunicação. “No Brasil, existem milhões de empresas registradas, mas apenas pouco mais de 200 chegam a 100 anos funcionando. Quando se busca informações sobre jornais centenários, havia apenas 13 em atividade em dezembro de 2025”, ressaltou.
Para o diretor de Redação, o reconhecimento concedido pelo Parlamento estadual transcende o simbolismo institucional. “Os jornais impressos foram profundamente impactados pelas tecnologias digitais e pela pandemia. Por isso, reconhecer O Imparcial como Patrimônio Imaterial e Cultural do Maranhão é mais do que louvável. É reconhecer a resistência do jornalismo sério”, afirmou.
Ao longo do discurso, Raimundo Borges construiu uma narrativa que resgatou não apenas a história empresarial do jornal, mas sobretudo o papel humano desempenhado pelos profissionais da imprensa ao longo de um século. Ele lembrou dos redatores que escreviam à luz de lampiões, dos tipógrafos das antigas máquinas de linotipo e dos repórteres que percorriam as ruas de São Luís antes da internet e dos celulares. “Havia apenas a determinação de encontrar a verdade e entregá-la ao leitor”, disse.
O jornalista destacou ainda que a essência do periódico permanece ligada ao próprio significado de seu nome. “O jornal com o perfil de independência e imparcialidade sobre o que produz para a sociedade torna-se, acima de tudo, guardião da história, plataforma da democracia e defensor das causas da sociedade”, afirmou.
Na homenagem aos profissionais que ajudaram a construir o centenário do jornal, Raimundo Borges fez referência especial ao presidente do periódico, Pedro Freire, além dos jornalistas Douglas Cunha e Neres Pinto, apontados como decanos históricos da redação. Para ele, a trajetória de Pedro Freire simboliza a própria essência do jornal: “um lugar onde o mérito e o compromisso transformam colaboradores em líderes”.
Outro dos momentos mais emblemáticos da sessão ocorreu com o discurso do ex-presidente da República José Sarney, que relembrou o início de sua carreira jornalística em O Imparcial ainda adolescente, como repórter policial. “Cem anos completa O Imparcial — e como ele faz parte da minha vida! Algumas coisas não passam: ficam. E tornam-se parte do que somos. Ontem, em 1946, o jornal tinha 20 anos, e eu, 16. Éramos adolescentes”, disse ele em tom de saudosismo.
Em relato carregado de memória afetiva, Sarney reconstruiu o ambiente da antiga redação da Rua Afonso Pena, no Centro Histórico de São Luís e reafirmou a importância decisiva do jornal em sua formação intelectual, política e cultural. “Toda a formação cultural que me estruturou na vida se fez ali, naquela redação”, escreveu.
Ao recordar sua entrada no jornal por meio de um concurso de reportagem, o ex-presidente destacou o caráter formador do periódico para várias gerações de jornalistas, escritores e intelectuais maranhenses. “Foi minha primeira vitória na vida e determinante de minha carreira cultural e política”, afirmou.
Sarney também ressaltou o papel histórico de O Imparcial como repositório da vida maranhense. Segundo ele, as páginas do jornal guardam os registros da vida cotidiana, dos costumes, das transformações sociais e dos principais acontecimentos políticos do estado.
Em um dos trechos mais emocionantes do discurso que teve como base o seu artigo sobre o centenário do jornal, intitulado “Onde comecei”, o ex-presidente associou a memória da redação à própria construção da democracia brasileira. “Naquele pequeno mundo, fazíamos parte da construção do pensamento de uma Nação”, afirmou.
Um jornal que ajudou a construir um legado para o povo
O diretor-executivo de O Imparcial, Célio Sérgio, destacou em sua fala a trajetória centenária do periódico como resultado de um esforço coletivo construído por gerações de profissionais comprometidos com o jornalismo e com a sociedade maranhense.
Em discurso marcado pelo resgate histórico e pela valorização das pessoas que ajudaram a construir a identidade do jornal, Célio Sérgio afirmou que a longevidade de O Imparcial está diretamente ligada ao compromisso coletivo assumido ao longo de um século. “Cem anos. Um século de um produto que traz, em sua essência, a coletividade. Ninguém faz jornal sozinho”, declarou.
O diretor-executivo ressaltou que o centenário do periódico não representa apenas a sobrevivência de uma empresa de comunicação, mas a permanência de um projeto editorial sustentado pela defesa do bom jornalismo. “Se O Imparcial alcança o seu centenário, não é por acaso. Ele vive porque, em cada geração, houve pessoas dispostas a sustentar um projeto maior do que elas mesmas — pessoas que compreenderam que informar é, antes de tudo, um ato de compromisso com o coletivo, com a missão e com o propósito do bom jornalismo”, afirmou.
Ao relembrar a fundação do jornal em 1º de maio de 1926 pelos irmãos José e João Pires, Célio Sérgio destacou que o próprio nome do periódico traduz os princípios que nortearam sua história. “Eles escolheram um nome que era, por si só, uma declaração de princípios: O Imparcial”, disse. Segundo ele, a marca do jornal tornou-se “o alicerce sobre o qual estes cem anos foram construídos”.
Em um dos trechos mais simbólicos do discurso, o executivo fez referência às diferentes gerações de trabalhadores que ajudaram a consolidar a história do periódico. Ele citou os antigos redatores que escreviam “à luz de lampiões”, os tipógrafos das máquinas de linotipo e os repórteres que percorriam as ruas de São Luís antes das facilidades tecnológicas atuais. “Havia apenas a determinação de encontrar a verdade e entregá-la ao leitor”, ressaltou.
Célio Sérgio também destacou a contribuição histórica do presidente do jornal, Pedro Freire, apontado por ele como símbolo da capacidade de transformação e renovação da empresa ao longo das décadas. “Pedro Freire começou como revisor e chegou à presidência da empresa. Sua trajetória é a metáfora perfeita do que este jornal representa: um lugar onde o mérito e o compromisso transformam colaboradores em líderes e moldam o destino da instituição”, afirmou.
Segundo o diretor-executivo, foi sob a condução de Pedro Freire que O Imparcial atravessou as grandes mudanças tecnológicas da comunicação. “Foi Pedro Freire quem conduziu O Imparcial pela revolução tecnológica: do preto e branco à policromia, da máquina de escrever ao computador, do telex à internet”, destacou. Para ele, essas mudanças representaram mais do que avanços técnicos. “Eram apostas no futuro — a convicção de que um jornal só se torna centenário porque nunca para de se reinventar”, pontuou.
Ao falar sobre sua própria trajetória no grupo, Célio Sérgio afirmou sentir-se resultado dessa cultura de renovação construída ao longo da história do jornal. “Eu mesmo me incluo aqui como fruto de suas apostas. É essa mesma convicção que me honra hoje com a confiança de conduzir a direção desta empresa”, declarou.
Durante o pronunciamento, o executivo reforçou ainda o princípio editorial que, segundo ele, permanece inegociável na trajetória do jornal. “Chegamos até aqui com o mesmo propósito inegociável: ser para todos e não ser de ninguém”, afirmou.
Ao comentar o reconhecimento de O Imparcial como Patrimônio de Natureza Cultural Imaterial do Estado do Maranhão, título concedido pela Assembleia Legislativa, Célio Sérgio ressaltou que a homenagem ultrapassa os limites institucionais da empresa e alcança todos aqueles que ajudaram a construir o periódico ao longo de cem anos.
“Receber hoje o título de Patrimônio de Natureza Cultural Imaterial do Estado do Maranhão é um reconhecimento que não pertence apenas a O Imparcial. Pertence a todas essas pessoas. Às que ainda estão conosco e às que já partiram”, afirmou.
O diretor-executivo também destacou a relação afetiva construída entre o jornal e os maranhenses ao longo de um século de circulação. “Pertence a cada maranhense que, ao abrir O Imparcial — seja no papel ou no digital —, encontra ali o reflexo da sua própria história”, declarou.
Na parte final do discurso, Célio Sérgio ressaltou que, apesar da relevância histórica do centenário, o jornal permanece voltado para o futuro e para os desafios das novas transformações do jornalismo. “Cem anos é muito tempo. Mas não é o passado que nos move hoje — é a consciência de que ainda há muito a contar”, afirmou.
Encerrando sua fala, ele destacou a capacidade de adaptação do periódico diante das mudanças sociais e tecnológicas. “O Maranhão muda. O jornalismo muda. E O Imparcial muda com eles. Assim como nossos fundadores, não tememos o futuro, pois o construímos agora, no presente, a cada edição. Porque esse é o nosso papel”, concluiu.
A sessão solene deixou evidente que o reconhecimento concedido ao jornal transcende a celebração de uma marca centenária. A homenagem simbolizou o reconhecimento à força histórica do jornalismo como instrumento de preservação da memória, de defesa da democracia e de construção da identidade coletiva.
Ao completar cem anos de circulação ininterrupta, O Imparcial reafirma sua condição de testemunha privilegiada da história maranhense. Um jornal que registrou guerras, eleições, mudanças de governo, movimentos culturais, transformações urbanas e a vida cotidiana de gerações inteiras de maranhenses.
Mais do que noticiar fatos, o periódico ajudou a construir a narrativa histórica do Maranhão. E foi exatamente essa dimensão histórica, cultural e democrática que a Assembleia Legislativa reconheceu ao transformar o centenário de O Imparcial em um dos momentos mais simbólicos da memória recente da comunicação maranhense.


